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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Pássaro

Relato de experiência no Programa de Iniciação Artística[1]

Pedro Penuela


“No reino de uma imaginação criadora aérea, o corpo do pássaro é feito do ar que o cerca, e sua vida do movimento que o arrebata”
(Gaston Bachelard[2])


            No CEU Cantos do Amanhecer, nas turmas das quintas-feiras (de 5  a 7 anos e de 8 a 10 anos), instados pela participação das crianças em um sarau na Biblioteca, experimentamos propor a elas dançar (ou "corporificar") fragmentos de poemas de Manoel de Barros:

            “Quis pegar/ entre meus dedos/ a Manhã./ Peguei vento”
(versos retirados do poema “A menina avoada”) [3]

 “Escuto o meu rio:/ é uma cobra/ de água andando/ por dentro de meu olho”
(versos de “Poeminhas pescados numa fala de João”)

“Vento?/ Só subindo no alto da árvore/ que a gente pega ele pelo rabo”
(idem)

 “As plantas/ me ensinavam de chão./ Fui aprendendo com o corpo.// Hoje sofro de gorjeios/ Nos lugares puídos de mim./ Sofro de árvores”
(versos de “Na fazenda”)

            Estes (e outros) trechos de poemas eram sussurrados no ouvido de cada criança, que, então, traduzia as sensações e imagens suscitadas pelo poema em uma performance silenciosa, envolvendo o corpo todo em movimento[4]. Em seguida, o poema era lido em voz alta.
O resultado dessa experimentação foi bastante impactante e nos maravilhou diante da abertura própria da corporeidade das crianças ao imaginário poético, do caráter tão imediato de sua comunicação com esse imaginário e de sua capacidade de traduzi-lo em presença corporal e gesto. Como coloca Laurence Louppe, “o corpo não é anterior ao seu próprio movimento; não existe uma substância-corpo prioritária, mas uma rede de interferências e de tensões através da qual o sujeito é constituído pelo próprio meio”[5]. A corporeidade brincante e móvel das crianças parece nadar em um universo próprio de ressonâncias e articulações entre os elementos materiais, que tenderíamos a reconhecer como desarticulados. Corpo em devir. Nas palavras precisas de Bachelard, “ao finalismo prático dos órgãos, exigido pela imperiosa necessidade das exigências imediatas, corresponde um finalismo poético que o corpo detém potencialmente”[6].
Nesta experiência, as sensações-imagens evocadas pela poesia de Manoel de Barros engendraram quase imediatamente no corpo a memória de certa intimidade com a natureza, que se revela no gesto das crianças, mesmo quando vivem em um ambiente urbano onde os pássaros, os rios, a mata, a terra, o vento, o céu parecem cada vez mais difíceis de acessar.
Além disso, cabe notar que os trânsitos entre palavra poética e corpo poético apontam possibilidades ricas de leitura e recepção do texto poético para além do “entendimento” verbalizado, e que podem ser pensadas como uma forma de “tradução intersemiótica”, isto é, de tradução de uma obra desde um sistema de signos para outro sistema de signos[7]. Ou ainda, para além da noção de tradução, a transposição da palavra para o movimento do corpo implica uma recriação, em que a apropriação do poema não se dá de maneira linear ou fiel, mas como um espaço de co-autoria, de reorganização da enunciação da obra original, de acordo com caminhos de afetos e apreensão singulares de cada recriador.
Vale dizer, ainda, que esse espaço transicional entre sistemas de signos (no caso, entre poesia e dança) implica uma maneira que nos parece potente e relevante de atuação sobre o princípio da “interlinguagem”, um dos eixos do Programa, na medida em que, não se trata de articular as linguagens dentro de algum tipo de hierarquização (em que uma linguagem é subsidiária à outra, como, por exemplo, quando se tenta “dançar a música” ou fazer uma produção visual como fundo de uma cena teatral) ou de sucessão linear (como, por exemplo, quando se recorre à dança como “aquecimento” para uma criação dentro de outra linguagem, ou à criação plástica como “registro” de outra criação), mas instaurar um espaço de diálogo, de trânsito recriador, assumindo as tensões, os silêncios, precariedades e potências próprios de cada sistema de signos (de cada “linguagem artística”, no caso), no encontro.


                                                                               Foto: Ana C. Anjos

Nesse sentido, afetados por esse engendramento poesia-corpo e interessados nas possibilidades desse trânsito “intersemiótico”, fomos seguindo uma trajetória um tanto noturna, subterrânea, de associações de imagens poéticas e temas, que nos levou à imagem do pássaro (já insinuada no nome do livro de onde tiramos os poemas lidos inicialmente, “Compêndio para uso dos pássaros”) e à história do Uirapuru[8], mito de povos originários da Amazônia, que narra a origem do pássaro que canta um dos cantos mais bonitos da floresta dessa região.
Gaston Bachelard, já citado aqui, ao discutir o imaginário poético associado ao elemento ar, dá especial importância aos pássaros: “O pássaro é uma força ascencional que desperta a natureza inteira”[9].
Em alguns de nossos passeios com as crianças nas áreas externas do CEU, desde o início deste ano, propusemos que todos ficassem em silêncio e que quem escutasse o canto de um pássaro, levantasse a mão. A referência aos pássaros costuma sempre criar um silêncio amplo, denso, com uma qualidade bem especial – vontade de contato, de proximidade, sonho de voo. O canto nos aproxima, pulsar vindo do corpo do pássaro que viaja pelo ar e chega a nós como indício de sua presença, um pouco como a luz, que carrega a imagem de uma estrela depois de um percurso de milhares de anos pelo espaço. Pássaros e estrelas parecem falar de alguma coisa distante e ao mesmo tempo intimamente reconhecida. As crianças gostam de ouvir e de buscar o canto dos pássaros, como gostam de correr sentindo o vento atravessar o corpo, estendido por panos e objetos esvoaçantes. “Para a imaginação dinâmica, o voo é uma beleza primeira”[10].
O Uirapuru é um pássaro-canto, um índio apaixonado que tocava flauta, isto é, que fazia do ar-vento sua matéria de expressão (vento atravessando o corpo e, dele, impulsionado para atravessar o corpo do instrumento, e fazê-lo vibrar – metáfora de um encontro amoroso com a matéria do instrumento, o vento que sai do corpo fazendo-o soar). Som e vento foram delineando esse modo pássaro de criar que íamos construindo.
Partindo da história deste pássaro, que narramos para as crianças acompanhando-a por sons de instrumentos feitos de materiais como madeira e sementes (materiais próximos de elementos mais primários, mais diretamente ligados à terra e sua matéria – tipo de materialidade com que temos prioritariamente trabalhado neste ano), propusemos diferentes ações evocativas dos pássaros (e da intimidade entre ar-vento e corpo) – dançar com panos leves em frente a um ventilador, dançar e correr com fitas metalizadas que ondulam no ar, jogos de improvisação com o apoio desse tipo de objeto leve (fitas, tecidos, penas...), correr pelo ar livre e sentir o vento[11].


                                                                             Foto: Ana C. Anjos

Em seguida, mostramos às crianças videos da coreografia de Luc Petton, “A confiança dos pássaros” (La confidènce des oiseaux)[12], em que bailarinos interagem com pássaros vivos, que voam pelo palco e pousam por vezes em seus corpos e em alguns suportes de madeira neles equilibrados. Inspirados por essa coreografia, brincamos de alternar os papeis do bailarino que dança lentamente, oferecendo partes de seu corpo como galhos de uma árvore, esperando o pássaro chegar e pousar, e o papel dos pássaros, que voavam-corriam abrindo e batendo suas asas-tecido e pousando de vez em quando no corpo de alguma criança-bailarino.
Ao equilíbrio dos suportes para o pouso dos pássaros, associamos, mais tarde, os móbiles de Alexander Calder e as “esculturas de ar” de Daniel Wurtzel[13], desdobrando essa temática em produções plásticas.
O corpo fluido e leve do pássaro em voo, corpo que imaginamos quase como puro movimento, feito do próprio espaço e nele sustentado, nos lembra e nos desperta o afeto de um corpo múltiplo, corpo em devir, fluxo de possibilidades e estados inconcebíveis a priori – “na maior parte do tempo, diferentes corpos circulam, visíveis ou invisíveis, no interior dos corpos dançantes, como vagas misteriosas, cujas referências corporais se confundem ou se sobrepõem”[14]. Dançar é também um pouco ser pássaro, ser o movimento e fluir no tempo (“fluir na imanência”, nas palavras do filósofo José Gil), como soprar uma flauta ou fazer do fôlego o canto é também encontrar um corpo-vento sonoro, corpo que faz do ar e do espaço elemento de atrito contra seus túneis e paredes internos, criador de vibrações e ondas no ar de fora. Como o flautista ancestral tornado pássaro, vamos descobrindo os desconhecidos e infinitos em que podemos nos transformar – o que não deixa de ser uma maneira nossa de voar.

* Texto publicado também em: ensaiosPIA *



[1] Programa da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Mais sobre o PIA: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/dec/formacao/
[2] Bachelard, Gaston. O Ar e os Sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p. 69.
[3] Barros, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, pp. 96, 97, 98 e 115
[5] Louppe, Laurence. Poética da dança contemporânea. Lisboa: Orfeu Negro, 2012, p. 77.
[6] Bachelard, Gaston. Op. cit., p. 9.
[7] Cf. Diniz, Thaís F. N. Tradução intersemiótica: do texto para a tela. In: Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 1, n. 3, p. 313-338, 1998.
[8] Cf. Boff, Leonardo. O casamento entre o céu e a terra: contos dos povos indígenas do Brasil. São Paulo: Salamandra, 2001.
[9] Bachelard, Gaston. Op. cit. p. 70.
[10] Bachelard, Gaston. Op. cit. p. 66.
[11] Link de um video com algumas dessas performances das crianças: https://www.youtube.com/watch?v=Bxxbmst5cWs&list=UUxR3lAUvAqnaeOeLBwJmyVg
[12] Vídeos desse trabalho podem ser vistos em:
[13] Mais informações sobre o trabalho deste artista em: www.danielwurtzel.com/
[14] Louppe, Laurence. Op. cit., p. 81.

sábado, 18 de agosto de 2012

Corpo e educação infantil


CORPO E EDUCAÇÃO INFANTIL

Pedro Rodrigo Peñuela Sanches

(Texto originalmente produzido para a Revista Catavento, publicação interna do Centro de Convivência Infantil do Palácio dos Bandeirantes, SP - setembro de 2011)


“Há, no homem, um instinto de vida e de cura espontânea que, uma vez despertado, conduz a uma retomada de equilíbrio, muitas vezes surpreendente. Logo senti que esse trabalho a partir do corpo dizia respeito a todos, e ultrapassava em muito minhas primeiras perspectivas” (Yvonne Berge)

            Atualmente, num mundo tão urbanizado e industrializado, é cada vez mais comum vivermos um cotidiano de distanciamento em relação a nossos corpos. Um grande número de pessoas acorda de manhã com o auxílio do despertador, regula seu corpo de acordo com o tempo do relógio, e passa grande parte do dia em posição sentada (no automóvel, no local de trabalho, etc.), em ambientes artificiais, usando muito pouco o próprio corpo[1].
            Ao mesmo tempo, temos sido bombardeados por uma quantidade muito grande de estímulos visuais e auditivos. Essa estimulação constante faz com que momentos de silêncio, de pausa, de repouso ou relaxamento sejam cada vez mais raros, criando um tipo de “vício de estimulação”[2]: as pessoas passam a necessitar de estímulos cada vez mais fortes para realmente percebê-los.
            Além disso, o corpo é também alvo de uma produção muito intensa de imagens e de ideais de beleza, o que gera em muitas pessoas o sofrimento de sentir-se tendo um corpo inadequado, feio, aquém dos ideais que aparecem nos programas de TV, nas propagandas, revistas, etc.
Essa realidade afeta especialmente o desenvolvimento das crianças e transforma sua forma de brincar e de estar no mundo.
Há algumas décadas, mesmo em uma cidade como São Paulo, as crianças, desde cedo podiam fazer grandes deslocamentos pela cidade[3], descobrindo seus mistérios, explorando suas possibilidades, criando seus próprios brinquedos, e envolvendo profundamente seus corpos nas brincadeiras.
Hoje, porém, as crianças vivem em ambientes cada vez mais restritos, a cidade se tornou perigosa e cheia de carros, e a brincadeira tem se limitado aos jogos eletrônicos e à televisão.
O corpo vai adormecendo; o tato e o olfato ficam quase esquecidos; a visão e a audição desde muito cedo passam a ser quase os únicos sentidos estimulados, as interações com as outras crianças diminuem, como diminui também o acesso aos espaços naturais e às possibilidades de construir os próprios brinquedos... essa riqueza de experiências, que em outros tempos povoavam a vida das crianças, se perde rapidamente.
Tendo isso em vista, o trabalho com o corpo passa a ter cada vez mais importância na educação, e especialmente na educação infantil. Por isso, desde 2009, temos feito semanalmente no CCI oficinas de “Expressão corporal”, que são pensadas como um modo de deixar as crianças redescobrirem suas possibilidades de movimento, brincarem com o corpo, conhecerem o mundo usando todos os sentidos, e enfim, libertarem-se de alguma forma, das restrições e aprisionamentos aos quais seus corpos vêm sendo submetidos.



As aulas são baseadas na linguagem da dança e das artes do corpo, pois entendemos que, como coloca a educadora Yvonne Berge, “a dança (...) educa a receptividade sensorial e suscita um sentido novo, que (...) torna-se ponto de referência para o qual nos voltamos espontaneamente, e que nos permite tornarmo-nos receptivos, como o pescador ao peixe, o caçador à caça, e o navegante ao vento.[4]
            Nesse sentido, buscamos criar um espaço em que a criança possa experimentar diferentes formas de movimentação, sem sentir que precisa mover-se de uma determinada maneira, conforme algum padrão de “certo” ou “errado”. A idéia principal é, pouco a pouco, “criar um clima de distenção que permita à criança o direito de errar, de ser simplesmente ela mesma[5]”.
Portanto, não queremos que as oficinas sejam vividas pelas crianças como mais uma tarefa a ser cumprida, mas que sejam um espaço de respeito ao seu tempo e ritmo próprios.
            Tendo como base esse posicionamento, propomos brincadeiras de movimento, dramatizações de cenas e de histórias, imitação de animais, personagens, objetos, e momentos de fantasia compartilhada, etc. a fim de abrir espaço para que as crianças desenvolvam ou descubram seu equilíbrio postural e uma distribuição mais saudável do peso e do tônus muscular, e também despertem os sentidos do tato, do olfato e do paladar, bem como a ligação entre a visão, a audição e o movimento.



            Também procuramos deixar que as crianças vivenciem momentos de desorientação, pequenas quedas, e que possam girar, saltar, soltar o peso do corpo em uma superfície amortecida, andar sobre terrenos irregulares, etc. para descobrir suas possibilidades de equilíbrio e encontrar soluções com o próprio corpo em diversas situações.
            Esse trabalho tem trazido desafios e descobertas muito especiais. No grupo 2, as crianças estão terminando o processo de conquistar a capacidade de ficar em pé, então o aprendizado com as quedas e as situações de desequilíbrio é bastante valioso. Lembro claramente de quando as crianças desse grupo descobriram que podiam pular de um caixote ao outro confiando em seu próprio equilíbrio e perdendo aos poucos o medo, buscando desafios maiores.
            No grupo 3, as crianças já conquistaram mais possibilidade de movimento e começam a estar mais atentas ao coletivo e às possibilidades de brincarem em grandes grupos. Nessa idade, elas começam a descobrir o prazer de uma brincadeira como o pega-pega, e a conseguir esperar a vez de cada um para ser o pegador ou o fugitivo na brincadeira. Também com as crianças dessa idade, criamos juntos, desde o ano passado, uma brincadeira de fantasia que eles adoram, a “floresta do Beleléu”: todos juntos subimos em um avião e voamos até uma floresta, onde mora o Beleléu. Lá subimos montanhas, nadamos em rios e cachoeiras, atravessamos tempestades, furacões, e nos transformamos em animais (fantásticos ou não), enquanto procuramos pelo Beleléu.
Algumas crianças criam soluções muito criativas para representar certos personagens ou objetos apenas com os movimentos, como quando uma das crianças, por exemplo, criou sozinha um gesto muito engraçado com as mãos para representar um helicóptero, quando todos estávamos paralizados, sem saber como representá-lo.



            Com o Grupo 4, já podemos nos aventurar em criações de coreografias e improvisações. As crianças adoram dançar, especialmente com o apoio de objetos, bonecos, marcas no chão, etc. Em uma brincadeira como a “Dança das Caveiras” (cantada por Bia Bedran), pedimos que cada um criasse uma ação nova, diferente das ações já definidas pela música, e elas se apropriaram dessa idéia de forma muito rica: algumas trouxeram o universo dos videogames, ou dos desenhos animados (propondo que as caveiras deveriam pegar armas, se transformar em monstros, etc.), outras criaram ações mais aventureiras, como escalar montanhas, ou ações mais ligadas ao mundo da brincadeira, como jogar futebol, ou da fantasia, como se transformar em um animal.
Com as crianças dessa faixa etária, já conseguimos criar danças mais brincadas e mais improvisadas, inclusive para as apresentações de final de ano, o que nos ajuda a desmistificar a idéia comum de que só seria apresentável uma dança toda fechada e definida, imposta às crianças em ensaios desinteressantes e monótonos. Com elas, os ensaios e a preparação das apresentações também podem ser momentos de brincadeira, e da aparente bagunça, vão surgindo os movimentos e as formas, e a dança flui...
             
           



[1] Uma discussão mais completa sobre isso pode ser encontrada em LE BRETON, D. Adeus ao corpo. São Paulo: Papirus, 2003.
[2] Ver SIMMEL, G. A metrópole e a vida mental. Em: VELHO, O. G. (org.), O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.
[3] Ver, por exemplo, LIMA, M. S. A cidade e a criança. São Paulo: Nobel, 1989.
[4] BERGE, Y. Viver o seu corpo. São Paulo: Martins Fontes, 1981, p. 25-26.
[5] Idem, p. 30.