sábado, 16 de novembro de 2013

Da memória ao corpo: arqueologia coreográfica do CCSP

Foto: Ana Lu Sanches


A impossibilidade de acessar a história de um lugar apenas pelo simples estar ali torna urgente articular poeticamente as memórias registradas nos relatos, reminisciências e documentos, à memória concreta das “coisas banais”, das paredes, objetos, espaços… para poder partilhar sentidos nessa zona “entre a potência de significação inerente às coisas mudas e a potencialização dos discursos e dos níveis de significação”(nas palavras de Jacques Rancière). É neste campo que pretendemos atuar como artistas da dança que procuram evocar e recriar memórias do espaço do CCSP, em diálogo afetivo com memórias pessoais com as quais possamos encontrar pontos de entrecruzamento (ficcional, coreográfico, poético).

TRABALHO REALIZADO PARA O EDITAL "Novos coreógrafos - Novas criações: Site Specific", do Centro Cultural São Paulo

Intérpretes-criadoras: Ana Brandão e Rosana Pellegrini
Intérprete-criador convidado: Pedro Penuela
Colaboração artística: Isabela Franceschi
Figurino: Georgia Bianco Januzzi
Operação de som e contra-regragem: Thiago Cohen e Rodolfo Horoiwa
Flyer e material gráfico: Aline Temoteo
Foto e vídeo: Vinícius Sanaiote e Ana Lu Sanches
Trilha sonora: Ana Brandão, Pedro Penuela e Rosana Pellegrini
Realização: Secretaria Municipal de Cultura, Centro Cultural São Paulo
2013

Da memória ao corpo arqueologia coreográfica do CCSP











Fotos: Ana Lu Sanches

Televisão



“A televisão viciou-nos com o movimento incessante, suprimindo do cotidiano a dimensão do repouso e do silêncio. (…) E, se todo olhar paralisa, nenhum olhar é mais paralisante que o da televisão. (…) Existe um momento, contudo, que libera o espectador da hipnose: é a falha. A falha revela o que a organização esconde, rasgando a cortina das imagens prontas, para dar a ver, num instante, as engrenagens do aparelho. (…) A falha surge, então, como uma irrupção do humano e do contingente, num universo mecânico e condicionado. (…).”

Luiz Nazario ("Pós modernismo e novas tecnologias". Publicado em Barbosa, Ana Mae & Guinsburg, Jacó. "O pós-modernismo". São Paulo: Perspectiva, 2008)

TRABALHO REALIZADO PARA O EDITAL "Novos coreógrafos - Novas Criações: Site Specific", do Centro Cultural São Paulo

Intérprete-criador: Pedro Peñuela
Captação de video ao vivo: Dresler Aguilera
Contra-regragem: Conrado Vivacqua
Preparação corporal e colaboração artística:
Ricardo Neves e Felipe Bittencourt
Fotografia: Ana Lu Sanches
Realização: Centro Cultural São Paulo -
Secretaria Municipal de Cultura
2013

Televisão














Fotografias: Ana Lu Sanches

Televisão - vídeo

Um respeitável homem engravatado cai.
Manca e não consegue manter-se em pé.
Desmorona, silenciosamente.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Bailarino pesquisador intérprete

"Durante o processo é importante que haja uma abertura para que o seu transe aprisionado, decorrente de tantos anos como instrumento, possa ser liberado no sentido de torná-lo sujeito de sua dança e não objeto. O processo portanto estará nas mãos do bailarino, a partir do momento em que ele aprenda a conduzir as oposições. Aceitando o conflito em seu corpo ele poderá elaborá-lo e transformá-lo em poesia. Uma importante condição para a construção de sua dança é a liberdade de dançar, isto é, sem a cristalização de códigos gestuais e sim a construção do gesto que está em contato direto com a vida."

Graziela Rodrigues



(Trecho do artigo "O bailarino-pesquisador-intérprete incorpora uma realidade gestual", dessa autora dançarina que eu admiro muito.
Disponível em: http://www.iar.unicamp.br/~graziela/gr_ap1.html)

*Foto: Espetáculo "Nascedouro", de Elisa Costa


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Contato Improvisação (trecho de texto de Annie Suquet)

"(...) Os pressupostos da dança-contato (...) estão longe de serem anódinos. Implicam uma visão poética, mas também política, da relação ao outro. O tato pode, com toda a razão, ser apresentado ali como "um sentido revolucionário". (...) O tato, esse sentido bastante primitivo e culturalmente desvalorizado, passa a ser, na dança-contato, o vetor de uma "redistribuição dos códigos espaciais e sociais da distância entre as pessoas". (...) A armadura muscular tende a se fazer mais flexível, os próprios tecidos do corpo amolecem, aprende-se a acolher e a ser acolhido, comenta a bailarina de contato Karen Nelson. O corpo do contacter atesta que ele não quer apoderar-se dos seres e das coisas, e essa atitude é emblemática de todo um setor da dança contemporânea.



(...) A dança-contato, com efeito, faz parte das formas de dança que, no século XX, reinventaram da maneira mais profunda a esfera perceptiva. Nessa dança do tato, o maior dos órgãos do corpo, que é a pele, desenvolve uma extrema sensibilidade que não tem nada de superficial. (...) Nenhuma dança neste século nega mais radicalmente a precedência cultural do olhar. Apenas a visão periférica continua sendo essencial, pois ela permite varrer um horizonte de formas em movimento. A dança-contato amplia essa modalidade da visão. (...) É com efeito, in fine, o "sentido do tempo" que se aguça pela dança-contato. "A que velocidade percebemos o nosso pensamento" - pergunta-se Paxton.
A contact improvisation (...) sintetiza muitos dos desafios da dança contemporânea. E ao mesmo tempo constitui para ela um ponto limite. A forma, a estrutura aí são radicalmente subordinadas ao processo. A contact improvisation permite que se veja a emergência do movimento: é a experiência que cria um espetáculo, aquém e além de toda representação mental"

(Fonte: SUQUET, Annie. Cenas: um laboratório da percepção. In: COURTINE, J. J., CORBIN, A. & VIGARELLO, G. "História do corpo". Vol 3. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008)

Foto: Foto mostrando o dançarino de CI Ray Chung, disponível em: http://contactimpro.org/en-article163.html