"Encontro entre corpos: um estudo sobre o corpo por meio do diálogo entre a dança Contato Improvisação e a psicanálise winnicotiana"
Minha dissertação de mestrado no IP-USP, disponível online.
Resumo:
Este trabalho pretende discutir alguns aspectos fundamentais a respeito das relações entre sujeito e corpo. Para isso, enfocaremos experiências propiciadas por uma proposta de dança contemporânea denominada Contato Improvisação, em um diálogo com os conceitos elaborados pelo psicanalista Donald Winnicott. O Contato Improvisação é uma forma de dança surgida nos anos 1970, nos EUA, baseada em uma proposta de improvisação a partir do contato físico. Essa proposta propicia regimes de relação e comunicação com o outro com matizes e sentidos complexos, passando por experiências de indiferenciação e comunicação imediata, até experiências de confrontação com a diferença e radical alteridade, não somente do outro corpo, mas a alteridade constitutiva do sujeito e da própria corporeidade. O exame destas diferentes experiências nos levará a discutir dimensões da presença da alteridade no processo nunca acabado de constituição do corpo, fundamentalmente alimentado pelas experiências ligadas ao universo do brincar, tal como conceituado por Winnicott.
Link para o texto completo:
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47133/tde-07052012-175206/pt-br.php
quarta-feira, 27 de março de 2013
Corpo-encontro (mestrado)
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A poeira que se assenta - Ai Weiwei
"Ainda existem tantas crianças que desejam viver contos de fadas, rapazes e moças que desejam se apaixonar, jovens que sonham com sua vida futura, pessoas bem-sucedidas que desejam dirigir BMWs, comprar apartamentos de luxo e arranjar uma segunda esposa, participar de reuniões importantes, discutir assuntos acadêmicos, desenvolver empreendimentos imobiliários, colocar sua empresa no mercado, abrir uma joint venture, expandir seu portfólio de investimentos, vender remédios, produzir, vender entradas para espetáculos, promover, aprimorar... tantos 'desejos', mas nenhuma vontade de respirar. Nenhuma vontade de abrir os olhos. Parece que as pessoas são capazes de existir no sufoco e na escuridão"
(Publicado no facebook do artista Ai Weiwei em 2006, mas a página, de acordo com informações na exposição do artista no MIS, foi apagada por mando do governo chinês)
Foto: Lennart Preiss/AP
segunda-feira, 18 de março de 2013
Ruínas
Colaboração com Ana Brandão e Rosana Pellegrini
| Fotos: Vinícius Sanaiote |
Afetados pelo fato de termos estudado dança no mesmo prédio que abrigou, há apenas uma década, um dos pavilhões da notória Casa de Detenção do Carandiru, decidimos remexer algumas de suas memórias e imergir nas narrativas que retratam os modos de existência e de sobrevivência naquela prisão, pondo-as em diálogo com nossas próprias experiências com Carandirus insuspeitos e sutis que povoam nosso cotidiano e acontecem em nossas histórias pessoais.
Mais informações:
http://projetoruinas.tumblr.com/
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sábado, 18 de agosto de 2012
Corpo e educação infantil
CORPO E EDUCAÇÃO INFANTIL
Pedro Rodrigo Peñuela
Sanches
(Texto originalmente produzido para a Revista Catavento, publicação interna do Centro de Convivência Infantil do Palácio dos Bandeirantes, SP - setembro de 2011)
Atualmente,
num mundo tão urbanizado e industrializado, é cada vez mais comum vivermos um
cotidiano de distanciamento em relação a nossos corpos. Um grande número de
pessoas acorda de manhã com o auxílio do despertador, regula seu corpo de
acordo com o tempo do relógio, e passa grande parte do dia em posição sentada
(no automóvel, no local de trabalho, etc.), em ambientes artificiais, usando
muito pouco o próprio corpo[1].
Ao
mesmo tempo, temos sido bombardeados por uma quantidade muito grande de estímulos
visuais e auditivos. Essa estimulação constante faz com que momentos de
silêncio, de pausa, de repouso ou relaxamento sejam cada vez mais raros,
criando um tipo de “vício de estimulação”[2]:
as pessoas passam a necessitar de estímulos cada vez mais fortes para realmente
percebê-los.
Além
disso, o corpo é também alvo de uma produção muito intensa de imagens e de ideais
de beleza, o que gera em muitas pessoas o sofrimento de sentir-se tendo um
corpo inadequado, feio, aquém dos ideais que aparecem nos programas de TV, nas propagandas,
revistas, etc.
Essa realidade
afeta especialmente o desenvolvimento das crianças e transforma sua forma de
brincar e de estar no mundo.
Há algumas
décadas, mesmo em uma cidade como São Paulo, as crianças, desde cedo podiam
fazer grandes deslocamentos pela cidade[3],
descobrindo seus mistérios, explorando suas possibilidades, criando seus
próprios brinquedos, e envolvendo profundamente seus corpos nas brincadeiras.
Hoje, porém,
as crianças vivem em ambientes cada vez mais restritos, a cidade se tornou
perigosa e cheia de carros, e a brincadeira tem se limitado aos jogos
eletrônicos e à televisão.
O corpo vai adormecendo;
o tato e o olfato ficam quase esquecidos; a visão e a audição desde muito cedo
passam a ser quase os únicos sentidos estimulados, as interações com as outras
crianças diminuem, como diminui também o acesso aos espaços naturais e às
possibilidades de construir os próprios brinquedos... essa riqueza de
experiências, que em outros tempos povoavam a vida das crianças, se perde
rapidamente.
Tendo isso em
vista, o trabalho com o corpo passa a ter cada vez mais importância na
educação, e especialmente na educação infantil. Por isso, desde 2009, temos
feito semanalmente no CCI oficinas de “Expressão corporal”, que são pensadas como
um modo de deixar as crianças redescobrirem suas possibilidades de movimento,
brincarem com o corpo, conhecerem o mundo usando todos os sentidos, e enfim,
libertarem-se de alguma forma, das restrições e aprisionamentos aos quais seus
corpos vêm sendo submetidos.
As
aulas são baseadas na linguagem da dança e das artes do corpo, pois entendemos
que, como coloca a educadora Yvonne Berge, “a dança (...) educa a receptividade
sensorial e suscita um sentido novo, que (...) torna-se ponto de referência
para o qual nos voltamos espontaneamente, e que nos permite tornarmo-nos
receptivos, como o pescador ao peixe, o caçador à caça, e o navegante ao vento.[4]”
Nesse
sentido, buscamos criar um espaço em que a criança possa experimentar
diferentes formas de movimentação, sem sentir que precisa mover-se de uma
determinada maneira, conforme algum padrão de “certo” ou “errado”. A idéia
principal é, pouco a pouco, “criar um clima de distenção que permita à criança
o direito de errar, de ser simplesmente ela mesma[5]”.
Portanto, não
queremos que as oficinas sejam vividas pelas crianças como mais uma tarefa a
ser cumprida, mas que sejam um espaço de respeito ao seu tempo e ritmo próprios.
Tendo
como base esse posicionamento, propomos brincadeiras de movimento, dramatizações
de cenas e de histórias, imitação de animais, personagens, objetos, e momentos
de fantasia compartilhada, etc. a fim de abrir espaço para que as crianças
desenvolvam ou descubram seu equilíbrio postural e uma distribuição mais
saudável do peso e do tônus muscular, e também despertem os sentidos do tato,
do olfato e do paladar, bem como a ligação entre a visão, a audição e o movimento.
Também
procuramos deixar que as crianças vivenciem momentos de desorientação, pequenas
quedas, e que possam girar, saltar, soltar o peso do corpo em uma superfície
amortecida, andar sobre terrenos irregulares, etc. para descobrir suas
possibilidades de equilíbrio e encontrar soluções com o próprio corpo em diversas
situações.
Esse
trabalho tem trazido desafios e descobertas muito especiais. No grupo 2, as
crianças estão terminando o processo de conquistar a capacidade de ficar em pé,
então o aprendizado com as quedas e as situações de desequilíbrio é bastante
valioso. Lembro claramente de quando as crianças desse grupo descobriram que podiam pular de um caixote ao outro
confiando em seu próprio equilíbrio e perdendo aos poucos o medo, buscando desafios
maiores.
No
grupo 3, as crianças já conquistaram mais possibilidade de movimento e começam
a estar mais atentas ao coletivo e às possibilidades de brincarem em grandes
grupos. Nessa idade, elas começam a descobrir o prazer de uma brincadeira como
o pega-pega, e a conseguir esperar a vez de cada um para ser o pegador ou o
fugitivo na brincadeira. Também com as crianças dessa idade, criamos juntos,
desde o ano passado, uma brincadeira de fantasia que eles adoram, a “floresta
do Beleléu”: todos juntos subimos em um avião e voamos até uma floresta, onde
mora o Beleléu. Lá subimos montanhas, nadamos em rios e cachoeiras,
atravessamos tempestades, furacões, e nos transformamos em animais (fantásticos
ou não), enquanto procuramos pelo Beleléu.
Algumas
crianças criam soluções muito criativas para representar certos personagens ou
objetos apenas com os movimentos, como quando uma das crianças, por exemplo, criou
sozinha um gesto muito engraçado com as mãos para representar um helicóptero,
quando todos estávamos paralizados, sem saber como representá-lo.
Com
o Grupo 4, já podemos nos aventurar em criações de coreografias e
improvisações. As crianças adoram dançar, especialmente com o apoio de objetos,
bonecos, marcas no chão, etc. Em uma brincadeira como a “Dança das Caveiras”
(cantada por Bia Bedran), pedimos que cada um criasse uma ação nova, diferente
das ações já definidas pela música, e elas se apropriaram dessa idéia de forma
muito rica: algumas trouxeram o universo dos videogames, ou dos desenhos
animados (propondo que as caveiras deveriam pegar armas, se transformar em
monstros, etc.), outras criaram ações mais aventureiras, como escalar
montanhas, ou ações mais ligadas ao mundo da brincadeira, como jogar futebol, ou
da fantasia, como se transformar em um animal.
Com as
crianças dessa faixa etária, já conseguimos criar danças mais brincadas e mais
improvisadas, inclusive para as apresentações de final de ano, o que nos ajuda
a desmistificar a idéia comum de que só seria apresentável uma dança toda
fechada e definida, imposta às crianças em ensaios desinteressantes e
monótonos. Com elas, os ensaios e a preparação das apresentações também podem
ser momentos de brincadeira, e da aparente bagunça, vão surgindo os movimentos
e as formas, e a dança flui...
[1] Uma discussão
mais completa sobre isso pode ser encontrada em LE BRETON , D. Adeus ao corpo. São Paulo: Papirus,
2003.
[2] Ver SIMMEL, G. A metrópole e a vida mental. Em:
VELHO, O. G. (org.), O fenômeno urbano. Rio de
Janeiro: Zahar, 1967.
[3] Ver, por
exemplo, LIMA, M. S. A cidade e a
criança. São Paulo: Nobel, 1989.
[4] BERGE,
Y. Viver o seu corpo. São Paulo:
Martins Fontes, 1981, p. 25-26.
[5] Idem, p.
30.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Chuva
"(...) São pessoas comuns, que em várias partes do mundo (...) provocam transformações de modo ordinário, discreto e imperceptível, tornam-se dignos todos os dias, mas com tamanha naturalidade que parecem sempre ter sido dignos. O impacto destas transformações é forte, embora elas expressem a mesma naturalidade e o mesmo frescor exalados por uma onda no mar seguida de outra.
Haveria muitas coisas a aprender com antigos guerreiros e, também, com os combatentes do cotidiano ordinário de nossos dias. Difícil encontrá-los, dizem uns, não vivem por aqui, dizem outros. Talvez vivam por aqui sim, e bem próximos; pois, se um bom estrategista prima pela discrição, os melhores são aqueles que não deixam traços."
(Denise B. de Sant'Anna, do livro "Corpos de passagem". Estação Liberdade, 2001)
Fotos tiradas com celular, na chuva, em SP.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
O corpo
"(...) quando você encontra um corpo, quando você descobre um corpo, o corpo está ali, de uma só vez, descolado da pessoa, da fala, do contexto, do sentido, da história, da paisagem. Um corpo é sempre estranho e estrangeiro, em sua opacidade inapreensível, inesgotável, irredutível. O corpo pode significar algo, enquanto signos, gestos, mímica, com todas suas mobilidades, mas o real que aí se dá como corpo é aquele que rompe com a significação. O corpo é esta ruptura. O corpo é este estranho começo e recomeço que pode colocar tudo em questão."
Kuniichi Uno, "Corpo-gênese: em torno de Tanaka Min, de Hijikata e de Artaud", publicado nos "Cadernos de Subjetividade", 2010 - um dos textos que mais tenho lido e relido...)
Foto: Sankai Juku - Utsushi
Caminhos
Feliz por revisitar esse meu antigo blog, decidi tentar voltar a escrever aqui... agora com foco no que tenho pensado, pesquisado, lido, produzido em relação ao corpo, dança, trabalho corporal, e por aí afora... mas sempre com outros assuntos da vida que continuam cabendo nessa vontade de dizer coisas pro mundo...
Porque todos, todinhos, temos algo a dizer aos demais, alguma coisa que merece ser pelos demais celebrada ou perdoada. (Eduardo Galeano, citado neste mesmo blog em novembro de 2007)
Porque todos, todinhos, temos algo a dizer aos demais, alguma coisa que merece ser pelos demais celebrada ou perdoada. (Eduardo Galeano, citado neste mesmo blog em novembro de 2007)
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