(Escrevi esse texto pra ser publicado no jornal dos estudantes do IP-USP, mas caso não saia a tempo, aqui vai)
Memória e voz
“Celebração da voz humana
Tinham as mãos atadas, ou algemadas, e no entanto os dedos dançavam, voavam, desenhavam palavras. Os presos estavam encapuzados, mas, inclinando-se, conseguiam ver algo, um pouquinho, por baixo. Ainda que falar estivesse proibido, eles conversavam com as mãos.
Pinio Ungerfeld me ensinou o alfabeto dos dedos, que na prisão aprendeu sem professor:
– Alguns tínhamos má letra – me disse –. Outros eram uns artistas da caligrafia.
A ditadura uruguaia queria que cada um fosse nada mais que um, que cada um fosse ninguém: nas prisões e quartéis em todo o país, comunicar-se era delito.
Alguns presos passaram mais de dez anos enterrados em solitários calabouços do tamanho de um ataúde, sem escutar mais vozes que o estrépito das grades ou os passos das botas pelos corredores. Fernandez Huidobro e Maurício Rosencof, condenados a essa solidão, se salvaram porque puderam falar-se, com golpezinhos, através da parede. Assim se contavam sonhos e lembranças, amores e desamores; discutiam, abraçam-se, brigavam; compartilhavam certezas e belezas e também compartilhavam dúvidas e culpas e perguntas, dessas que não têm resposta.
Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, à voz humana não há quem pare. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde seja. Porque todos, todinhos, temos algo a dizer aos demais, alguma coisa que merece ser pelos demais celebrada ou perdoada.”
Eduardo Galeano (tradução livre de trecho de “El libro de los abrazos”)
Depois do último evento de memória do nosso CA, a professora Ecléa Bosi, numa conversa de corredor, contava um pequeno detalhe desses que ocupam as notas de rodapé da historiografia oficial (a mesma que fundamenta que uma rua vizinha nossa tenha o nome do militar que ordenou a morte da Aurora Furtado). Trata-se das circunstâncias em que morreu Carlos Lamarca, companheiro da Iara Iavelberg. Contava a Ecléa que ele morreu sob um pé de angico. Logo depois de os vigias que estavam à frente lhe dizerem “os homens estão chegando”, ele toma um tiro, sem ter tempo de ter qualquer reação à notícia escutada. Ecléa termina esse relato comentando que curiosamente, Lampião morreu exatamente da mesma forma, debaixo de um pé de angico, sem ter tempo de reagir à notícia dada da mesma maneira: “os homens estão chegando”.
Sem melhor resposta pra dar, lhe digo que é triste, mas a história se repete. Ela responde, “espero que não com vocês”.
Recentemente li no jornal de uma chapa candidata ao nosso DCE pra próxima gestão a notícia de que um estudante de uma universidade americana fora preso no meio de uma palestra do senador John Kerry por fazer-lhe perguntas inconvenientes ao que seria uma palestra-campanha. As circunstâncias de seu aprisionamento são detalhadas e me parecem eloqüentes por si mesmas: ao tentar fazer uma segunda pergunta o estudante é pego por três policiais e algemado e, ao insistir em dizer que não havia cometido nenhum delito, é silenciado com um aparelho que lhe ministra choques elétricos dolorosos o suficiente para pará-lo (o velho choque elétrico, esse dispositivo fetiche de controle dos loucos, dos insistentes; essa maravilha produtora do bom-comportamento).
Não soube mais nada do destino do estudante. Provavelmente a imprensa oficial não tem nada a dizer a respeito.
Escrevo esse texto como uma tentativa desajeitada de marcar a importância radical e a raridade cada vez maior dos que levantam a voz num mundo que sofistica em ritmo alucinante as ilusões de liberdade e os mecanismos de silenciamento (ironicamente o dicionário do meu computador não reconhece essa palavra).
Lembro de ter lido em algum lugar a respeito da maneira como um dos comandantes do governo americano na época da guerra do Vietnã justificava a legitimidade da intervenção militar com o argumento de que a “maioria silenciosa” apoiava a invasão, contrariamente à vontade da minoria, barulhenta, que ousava protestar.
Em nosso cotidiano, me assusta assistir à sutil guerra fria entre minorias barulhentas e maiorias silenciosas (sem maniqueísmos, afinal esses dois pólos representam quase que lugares estruturais que podem vir a ser ocupados pelos mais diversos atores) e a supremacia da pressão pelo silêncio, do enfrentamento individual do salve-se quem puder, do refúgio em nossas próprias epopéias privadas num mundo cada vez com menos esperança de sobrevivência, da individualização que nos homogeiniza em uma maioria silenciosa, incapazes de sequer saber contra o quê gritar...
Pergunto-me, pensando em nosso cotidiano de estudantes e produtores da psicologia na universidade, e na atuação das necessaríssimas instâncias avaliadoras de nosso desempenho produtivo, até que ponto a lógica produtivista a que estamos conformados todos de alguma maneira (senão conformados, submetidos) não funciona como silenciador da possibilidade de dizer realmente o que precisa ser dito.
Uma das melhores maneiras de silenciar a verdade de um sujeito é permitir-lhe dizer sem parar apenas o que não importa. O vômito verbal dos apresentadores de programas de televisão aos domingos o ilustra bem.
Domínio do silenciamento, domínio do esquecimento. A impossibilidade de dizer é também a impossibilidade de lembrar, e de, com isso, cultivar um enraizamento histórico que nos articule como herdeiros dos mesmos sonhos (ou feridas).
Alegoria do silenciamento é o olhar catatônico ou o relato verborrágico de violências que é uma constante em pacientes dos manicômicos que ainda permanecem em pé. Grito que denuncia a violência apagada relegado ao aprisionamento do controle farmacológico, do eletrochoque, da ausência de alguém que o escute como voz pública, que diz algo a respeito do mundo todo.
Se, como dizia um ilustre professor de nosso departamento melhor-avaliado (isto é, o mais produtivo), o que foi publicado há mais de dez anos está morto, é irrelevante, há espaço pra memória e pra palavra enraizada em nossa produção? Ou nos cabe produzir discursos cabíveis na linguagem power point da mediocridade?
Não consigo encontrar uma forma de escrever um parágrafo minimamente conclusivo (talvez porque é onde a fala claudica que algo importante possa aparecer). O que me motivou a escrever esse texto foi simplesmente uma vaga tristeza pelo apagamento da memória dos tantos que ousaram desobedecer o que merecia ser desobedecido. Minha única intenção (não satisfeita, a meu ver), era prestar-lhes alguma homenagem, ou de novo convidar a uma lembrança. As questões implícitas e explícitas que me motivam são velhas questões. Não é de modo algum a primeira vez que alguém as faz. Mas no “mundo ao contrário” em que vivemos há cada vez menos espaço pra elas, ou mesmo pra memória dos que ousaram fazê-las de novo, e de novo, incapazes de simplesmente se conformar.
De fato, “os homens” estão sempre chegando.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Hoje
Dia nublado, chuva incessante, desses em que a luz do dia, esquecida de sua fonte, é como cheiro que desperta lembrança distante, reavivando o que sempre esteve ali, escondido.
A ilusão quase patética de proteção dos guarda-chuvas e a insistência dos transeuntes em continuar obedecendo a relógios escancaram ainda mais a dolorosa luta de nossa época contra a memória em nossos corpos, presentificada numa vaga preguiça, ou melacolia, assim como na intimidade do que sentimos com o movimento de um céu como esse, abrindo espaço nos vãos entre os prédios, molhando nossas roupas de papel...
(No silêncio dessa noite invento fantasmas que teu abraço espantaria... esse ar tão mais limpo tem um cheiro suave de saudade...)
A ilusão quase patética de proteção dos guarda-chuvas e a insistência dos transeuntes em continuar obedecendo a relógios escancaram ainda mais a dolorosa luta de nossa época contra a memória em nossos corpos, presentificada numa vaga preguiça, ou melacolia, assim como na intimidade do que sentimos com o movimento de um céu como esse, abrindo espaço nos vãos entre os prédios, molhando nossas roupas de papel...
(No silêncio dessa noite invento fantasmas que teu abraço espantaria... esse ar tão mais limpo tem um cheiro suave de saudade...)
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Sobre escrever
(...) Não correr tanto pra fugir de si mesmo, do seu próprio mistério e silêncio, da sua ausência... é que a gente nunca está onde supostamente deveria, e quando eu acho que me encontrei a ponto de quase segurar-me nas mãos, é que me dou conta de que olhar pra si mesmo é encontrar sempre um outro. O que fazer com as peças que sobraram varridas pra debaixo do tapete? Onde encontrar as que faltaram pra completar a montagem? Como deter o curso de uma escritura que vai partindo pra direções não planejadas, como se o lápis nos tomasse pela mão? Como assinar uma história, uma vida, escrita assim afinal? E talvez descubramos que só estávamos mesmo nas entrelinhas, nos desvãos, no que não pôde ser dito ou ficou pela metade, boca aberta, mão no cabelo, arrepio, miragem, devaneio...
Sobre o ator
Enfim, ainda meio indeciso, estou voltando a postar... quem sabe isso me anime a completar esse blog com o que fui escrevendo na Índia... enquanto isso, vou pondo aqui coisas que escrevi há pouco tempo... a ver qué pasa...
Esse é curtinho, pensei nele e escrevi depois de ver a peça de um amigo querido...
O ator não entrega seu corpo, ele o empresta a nós naquele momento pra ser o entrecruzamento das linhas de fuga de nossa mirada e nosso sentimento. Pura carne mestiça e pulsante, o ator está distante: possuídos pelo espírito da personagem estamos apenas nós, quietamente olhando contorções que adivinhamos nossas. Quem atravessa desnudo um abismo é o desprevinido espectador, insuspeito de haver revelado demais justamente o que as máscaras e cenários supunham, ao mostrar tanto, esconder.
Esse é curtinho, pensei nele e escrevi depois de ver a peça de um amigo querido...
O ator não entrega seu corpo, ele o empresta a nós naquele momento pra ser o entrecruzamento das linhas de fuga de nossa mirada e nosso sentimento. Pura carne mestiça e pulsante, o ator está distante: possuídos pelo espírito da personagem estamos apenas nós, quietamente olhando contorções que adivinhamos nossas. Quem atravessa desnudo um abismo é o desprevinido espectador, insuspeito de haver revelado demais justamente o que as máscaras e cenários supunham, ao mostrar tanto, esconder.
terça-feira, 19 de junho de 2007
Umas possíveis últimas palavras
Não sei quando vou conseguir postar de novo nesse blog. Provavelmente só quando já estiver no Brasil, de volta da Índia... então, como últimas palvras de despedida aqui da Europa, deixo um texto que escrevi no ônibus, quando ia pra fazenda:
Na vida é importante demais saber nascer. A cada novo ciclo, conseguir dizer sim a cada novo dia, a cada passo inicial de um caminho.
A cada momento, só o que temos é um mundo totalmente novo e desconhecido. A cada instante, só o que temos é um começo, e cada olhar é o primeiro abrir de olhos de um recém-nascido.
Mas tendemos a criar e esforçamo-nos por manter sinais de segurança, continuidade, previsibilidade; constâncias que nos apressamos a interpretar como sinais de que o mundo já é conhecido e de que o futuro será sempre ou quase sempre tal e qual esperamos, afinal seguimos sendo os mesmos. E assim construimos uma imagem de continuidade e, agarrados a ela, nos sentimos seguros como um náufrago agarrado a uma bóia.
Nessa viagem, esse meu sentido de constância vem sendo testado, balançado, derrubado a todo momento. Eu nunca sei exatamente o que virá a seguir, e sempre que as coisas começam a se assentar em algo famililar, constante, quentinho, como a casa à qual retornamos sempre e todo dia, entao tudo muda, e eu estou novamente em um ônibus pra um novo lugar, um novo tempo/espaço... tenho que nascer de novo, mais uma vez.
No final, não sei bem, mas acho que a gente acaba sabendo estar quentinho a cada novo nascimento, e levando esse útero e raiz pra onde quer que estejamos. Pra poder viajar é preciso ser ainda mais parecido com as plantas. Não é questão de não ter raízes, mas de saber criá-las aonde quer que se vá, saber colher de cada nova terra os nutrientes que se precisa, e seguir em frente, para poder voltar
Na vida é importante demais saber nascer. A cada novo ciclo, conseguir dizer sim a cada novo dia, a cada passo inicial de um caminho.
A cada momento, só o que temos é um mundo totalmente novo e desconhecido. A cada instante, só o que temos é um começo, e cada olhar é o primeiro abrir de olhos de um recém-nascido.
Mas tendemos a criar e esforçamo-nos por manter sinais de segurança, continuidade, previsibilidade; constâncias que nos apressamos a interpretar como sinais de que o mundo já é conhecido e de que o futuro será sempre ou quase sempre tal e qual esperamos, afinal seguimos sendo os mesmos. E assim construimos uma imagem de continuidade e, agarrados a ela, nos sentimos seguros como um náufrago agarrado a uma bóia.
Nessa viagem, esse meu sentido de constância vem sendo testado, balançado, derrubado a todo momento. Eu nunca sei exatamente o que virá a seguir, e sempre que as coisas começam a se assentar em algo famililar, constante, quentinho, como a casa à qual retornamos sempre e todo dia, entao tudo muda, e eu estou novamente em um ônibus pra um novo lugar, um novo tempo/espaço... tenho que nascer de novo, mais uma vez.
No final, não sei bem, mas acho que a gente acaba sabendo estar quentinho a cada novo nascimento, e levando esse útero e raiz pra onde quer que estejamos. Pra poder viajar é preciso ser ainda mais parecido com as plantas. Não é questão de não ter raízes, mas de saber criá-las aonde quer que se vá, saber colher de cada nova terra os nutrientes que se precisa, e seguir em frente, para poder voltar
Paris
Montmatre (um dos moinhos)
Sacre CoeurUm velhinho que estava no cemitério de Montmatre (infelizmente apaguei por acidente uma foto linda que tinha tirado dele, sem ele perceber, costurando uma roupa)
Um salão da Ópera
Notre Dame
Notre Dame (detalhe)
Uma das pontes sobre o Sena
Uma loja muito charmosa na avenida que margeia o rio (no caminho pra o Museu D'Orsay)
Degas (Museu D'Orsay)
Van Gogh (mesmo museu)
Chagall (Centro Georges Pompidou)
Magritte (mesmo museu)
Praça do Centro Georges Pompidou (sob a chuva)
Arcimboldo (no Louvre)
Buda, arte afegã (Museu Guimet)
O turista deslumbradoParis foi minha última cidade aqui da Europa (bom, a não ser que eu ainda veja alguma nesse fim de semana...)
Fui meio sem vontade, ainda um pouco enfadado com os franceses, por coisas que vi deles quando estava na fazenda (aonde foram alguns)... enfim... e no final foi uma das cidades que mais me fascinou. Passear por Montmatre (e ainda ser convidado pra tomar café na casa de um artista)... depois pelas margens do rio, ou ir aos museus... ou tudo, a energia do lugar, das pessoas que ali viveram... as paixões que gerou... enfim, é uma cidade muito bonita mesmo.
E ainda ter estado ali com meu avô, ter falado de coisas tão importantes pra mim... ter gesticulado e me comunicado com as pessoas sem falar a língua... tudo tão valioso...
Gostei tanto que perdi o bilhete de volta e ainda, depois de quase não conseguir recuperar o número dele (só fui ir atrás disso às onze horas do dia anterior ao embarque, se se realizaria às 5h da manhã)... ainda perdi a hora de acordar (nao liguei o despertador) e quase perco o vôo... ato falho é pouco...
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